
AMOR ao trabalho

Algumas pessoas escolhem suas profissões e lugares de trabalho baseados em suas remunerações, oportunidades e demais benefícios. E existem também pessoas que priorizam sua satisfação pessoal em poder trabalhar com algo que lhes faça bem e que gostem. Esse é o caso de Jéssica Pinheiro, graduada em publicidade, que atua como fotógrafa e que encontra uma forma de vivenciar o trabalho através de um ciclo que envolve a satisfação pessoal e a satisfação do cliente, em um mesmo processo.
''A minha relação de amor com o meu trabalho é extremamente intensa! Quando eu faço um resgate de memória ideológica pra entender de onde surgiu este amor eu percebo que isso vem da minha infância. A nossa relação com amor, principalmente amor ao trabalho, quando você resgata isso de uma forma afetiva, você percebe que isso é desde criança você cria essa relação basta ter sensibilidade pra entender.
A profissional em tranças Rosian Matos diz que ingressou nesta profissão em um momento de sua vida na qual ela queria muito uma mudança no visual, mas perto de sua casa não existia nenhuma profissional especializada em seu tipo de cabelo, o crespo. Por esse motivo, ela pesquisou online e conheceu as tranças feitas com cabelos sintéticos. A partir daí, ela começou a fazer este estilo de trança nela mesma, contando com a ajuda da mãe. Depois de um tempo, ambas se profissionalizaram como trancistas e começaram a trabalhar com isso.
Quando trabalhamos com o que amamos é possível, até mesmo, criar arte. Segundo Richard Sennett, o ser humano é capaz de fazer e criar arte. Essa arte do fazer, quando exercida e praticada,
avança junto com o artifício do trabalho transformando o seu fazer em arte. Segundo o Sociólogo, esse conceito de fazer o que ama e poder criar arte é, de certa forma, uma ideia cíclica. Pois ao fazer o que ama, você realiza um bom trabalho que beneficia de alguma forma a sociedade ou o cliente comprador do produto ou serviço.
Assim como Jéssica descreveu seu imenso amor pelo trabalho, que lhe gerava uma realização profissional e pessoal ao ver a satisfação de seus clientes, Rosian segue pela mesma linha. Ela se gratifica por saber que sua atuação profissional causa reais mudanças na autoestima de suas clientes. Além dessas duas profissionais, muitos outros trabalhadores também podem se considerar como agentes da mudança que contribuem para a construção do amor próprio a quem eles prestam serviços. Um grupo de alunos do curso de Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Federal de Viçosa, abordaram esse assunto através do programa Contrarregra. Nos vídeos produzidos por eles, é possível compreender na prática como pequenas mudanças que os profissionais oferecem contribuem diretamente na autoestima do público e, por sua vez, retorna como satisfação e incentivo para o profissional.
Ainda falando sobre como o amor ao trabalho reverbera em uma satisfação tanto para o profissional, quanto para quem seu trabalho se destina, temos o estudante de terapia ocupacional da UFMG, João Guilhermo. Através de seu trabalho em um projeto com alunos do ensino fundamental, ele pôde perceber que todo o carinho e dedicação retornava como amor e confiança por parte de seus alunos. Ele conta que em uma determinada época durante seu período no projeto, acabou sendo acusado pelos professores da instituição. Eles suspeitavam que João teria deixado a porta de um laboratório aberta e que algum aluno aproveitou a oportunidade e destruiu maquetes que estavam lá dentro. Mas mesmo antes de tudo ser esclarecido, seus alunos o defenderam com unhas e dentes.
Bem, eu já me sentia super bem no projeto, me sentia acolhido! Mas, a partir daquele momento eu me senti amado por cada uma daquelas crianças...eu senti que pra elas eu não era mais só uma pessoa que acompanhava as aulas...só mais um monitor. Eu era uma pessoa importante! Uma pessoa que fazia a diferença no dia a dia delas! Uma pessoa que elas podiam confiar e que elas queriam perto. Pois, com aquela atitude de me defender e de mostrar que eu não havia feito aquilo...eles representaram um grande amor por mim e eu espero poder representar esse grande amor por eles em todas as minhas pequenas atitudes. É muito bom estar ali no acompanhamento de cada um dos meus alunos… isso me faz feliz!''
Mesmo que seja possível a pessoa trabalhar com o que ama, é importante se atentar para não serem exploradas em suas profissões. Segundo o artigo "Understanding contemporary forms of exploitation: attributions of passion serve to legitimize the poor treatment of workers" (Compreendendo as formas contemporâneas de exploração: as atribuições da paixão servem para legitimar o mau tratamento dos trabalhadores), estar encantado com algo pode nos cegar. O artigo mostra um fenômeno descrito como "legitimação da exploração da paixão". Este sugere que estar apaixonado pelo que faz pode te submeter a exercer tarefas das quais não foi contratado para realizar, além de poder te influenciar a trabalhar horas extras indevidas, aceitar situações desconfortáveis em prol de continuar no seu trabalho, dentre outros. A estudante de direito Fabiana Duarte demarca a importância de estarmos sempre observando nossa relação com o trabalho, para que os limites não sejam ultrapassados.
Quantas vezes ao longo de nossas vidas não nos deparamos com frases como "você tem que escolher uma profissão que ama", ou ainda "escolha o que goste de fazer e não terá que trabalhar um só dia"? Claro, é inquestionável a importância de gostar do que se faz, mas também é fundamental uma dose de questionamento. Atualmente vivemos em um mundo hiperconectado e esse cenário faz com que sejamos alcançados a qualquer momento pelos nossos chefes a partir de mensagens por aplicativos, como o whatsapp, e, isso torna possível que a barreira entre trabalho e tempo livre seja rompida ou até mesmo anulada.
É preciso, então, escolher o que gostamos e estar atentos a possíveis violações de nosso tempo "livre". Esse problema é também responsável por parte do esgotamento que sentimos e possibilita a exploração dos trabalhadores, ainda potencializado pela pandemia e a migração de trabalhos para o modelo home office. Nem sempre é fácil estabelecer esses limites porque em um contexto de altos índices de desempregos, ter uma fonte se sustento é a principal preocupação. No entanto, é necessário estar atentos aos nossos direitos e estabelecer as fronteiras para que sejam respeitadas.
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico divide as especialidades do conhecimento em oito áreas: Ciências Agrárias, Ciências Biológicas, Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, Engenharias, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes. Todos esses cursos englobam mais de 80 possíveis profissões. Além destas existem muitos outros trabalhos que se pode exercer com um conhecimento prático na área. Quaisquer destes ramos de trabalho devem cumprir com todas as diretrizes legais para fornecer ao funcionário um ambiente saudável.
Com tantas opções de áreas, cursos e especialidades é muito comum que os jovens fiquem confusos na hora de escolher qual caminho irão traçar em nossa vida profissional. Por isso, iniciativas de capacitação, palestras e demais recursos auxiliam a garotada acerca das possibilidades que estão ao seu alcance. A partir daí, eles podem analisar com qual profissão mais se identificam, tendo em vista também alguns outros pontos como metas pessoais, financeiras, etc.
Depois que o caminho a trilhar foi definido, o seguinte passo é estudar e se profissionalizar na área, sempre adquirindo mais conhecimento acadêmico ou prático. Tudo isso pode garantir a pessoa um bom emprego, estabilidade financeira e boa qualidade de vida. Outro ponto importante que, por vezes, nem sempre pode ser alcançado, é o de trabalharmos com algo que amamos.
É possível que você já tenha escutado a famosa frase ‘‘faça o que você ama e nunca sentirá que está trabalhando’’. Esse ditado e suas demais variações parecem muito bonitas e inspiradoras, mas em nossa sociedade atual, será que é possível trabalharmos com o que amamos?
Muitas pessoas acabam trabalhando com algo que não gostam e por isso se sentem insatisfeitas. Esse cenário pode se dar ao fato de que os jovens, por vezes, precisam definir suas profissões muito cedo ou sofrem algum tipo de imposição dos pais. Apenas o fato de poder escolher a própria profissão e o lugar no qual vai trabalhar por si só é um grande privilégio tendo em vista a desigualdade social, explicitada pelo elevado número de desempregados em nosso país.
De acordo com o IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) realizada no terceiro trimestre de 2021, o número de desempregados no Brasil era de 13,5 milhões. Tendo em vista um cenário no qual 12,6% da população brasileira não conseguiu um emprego, soa utópico dizermos que todos nós devemos trabalhar com o que amamos, uma vez que algumas pessoas tem
que agarrar qualquer oportunidade que aparece para que não entrem para essa estimativa. Ou, até mesmo, para outras estatísticas como a de pessoas rondando o mapa da fome, na miséria e com dívidas, por exemplo.
Trabalharmos com algo que nos traga felicidade com uma remuneração satisfatória é maravilhoso, mas, como vimos, nem sempre é o cenário no qual as pessoas estão inseridas. Por isso, independente se alguém escolheu seu cargo por amor ou por outros motivos, ambos são válidas. Mesmo a pessoa que prioriza a compensação salarial deve, de acordo com as leis trabalhistas, conviver em um ambiente de trabalho que lhe forneça os devidos direitos impostos por lei, assim como respeito e dignidade. De acordo com a psicóloga Gabrielly Brasca, para as pessoas que não amam seus trabalhos, seja por escolha ou por falta de oportunidade, ainda lhes resta a opção de transformar seus amores em hobbies.
transforme em uma via para alcançar seus objetivos, é uma via financeira segura, afinal. A frustração de não trabalhar com o que se ama é complicada porque cada um tem uma prioridade e está inserido em um meio social diferente, tem gente que paga todas as contas de casa, aluguel, escola dos filhos, comida e realmente não vê escapatória a não ser continuar trabalhando para sobreviver. Contudo, é bom que encontre um tempinho para reservar e fazer o que ama.''
E para as pessoas que amam seus trabalhos ou para as que ainda nem entraram nesse ramo, mas sonham em seguir alguma área por amor, é importante saber que nossa sociedade tem um imaginário construído sobre quais seriam as melhores profissões, as mais glamourosas ou, até mesmo, as mais dignas. Porém, todas as profissões que cumpram com os direitos trabalhistas são válidas. E mesmo que nossa sociedade seja construída com base em vários preconceitos e desigualdades que são refletidas no mercado de trabalho, leis e campanhas para desconstruir esse contexto social são cada vez mais comuns. Isso possibilita a construção de mais oportunidades para que uma gama diversa de pessoas ingressem em suas profissões desejadas, independentemente de seu gênero, raça, aparência, estilo e regionalidade, por exemplo.
Esses artifícios legais e a maior conscientização da sociedade contribuem para que a desigualdade no trabalho diminua. E, por sua vez, as pessoas possam escolher suas profissões com base no que desejam e não apenas no que aparece como oportunidade. No box abaixo, você terá acesso a alguns relatos de profissionais que amam seus trabalhos.


O amor ele literalmente rege tudo né? Ele é o princípio. Mas quando a gente se encontra no amor dentro do trabalho à uma satisfação que compensa o cansaço. Pra mim isso faz toda a diferença! Além de promover o algo a mais pras pessoas que estão trabalhando comigo e recebem um trabalho meu através da fotografia''.
“Na minha cidade eu pude ajudar várias pessoas a passar pela transição capilar, que é assumir o seu cabelo natural. Através das tranças eu pude facilitar muito a vida dessas pessoas, pelo fato delas não terem que ficar mexendo todos os dias com o cabelo. Isso diminui a nossa ansiedade em ver o cabelo crescer.
Daí eu me mudei pra uma outra cidade, mas continuo trabalhando como trancista e foi uma experiência que mudou a minha vida. E eu tenho certeza que mudei a vida de várias outras meninas porque é uma forma de assumir e voltar com seus cabelos naturais de forma confiante. Isso é muito gratificante! Eu tenho amor imenso pelo que eu faço exatamente por ver a transformação na vida das minhas clientes.”

''Não são todos que têm a sorte de poder trabalhar com o que realmente gostam, infelizmente. Nesse caso, a organização pode ser a melhor via para driblar essa insatisfação. Reservar um momento ou tempo para trabalhar em seus projetos pessoais e estipular metas. Talvez trabalhar por tempo integral com o que você ama não seja um absurdo total, se houver programação e metodologia. Pode ser que o seu trabalho atual, que você não gosta tanto, se

''Ao chegar na escola pra poder realizar o projeto junto aos alunos, me deparei com todas as crianças vindo correndo em minha direção e me abraçando. Algumas chorando, outras muito emocionadas. E ao me abraçarem elas falavam "A gente não quer que você vá embora, não vamos deixar que você vá embora", "A gente gosta muito de você", "Nós não vamos deixar que nada aconteça", "A gente falou que não foi você, a gente não sabe quem foi, mas vamos descobrir!































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