
AMOR romântico

‘‘A gente pode entender que a heterossexualidade compulsória empurra todas as pessoas para um padrão normativo que te afasta de tudo aquilo que você realmente gosta, daquilo que realmente te faz feliz. Sendo uma mulher lésbica, hoje depois de ter passado por relacionamentos com homens e por relacionamentos que não foram tão bons com mulheres eu descobri que amor é construção diária’’


Nos tempos atuais podemos perceber que cada vez mais as pessoas estão tendo a liberdade para serem elas mesmas e amarem quem elas quiserem... bem na linha que nosso famoso Gonzaguinha cantava ''viver e não ter a vergonha de ser feliz''. Esse contexto atual traz o surgimento de diversas pessoas compreendendo e descobrindo sua sexualidade, gênero ou a neutralidade deles. É por isso que quando falamos sobre o amor romântico temos que levar em conta todas as possibilidades de formar um relacionamento, englobando héteros, cis e também toda a comunidade LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bi, Trans/ Travesti, Queer, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, Não-binárias e mais).
Devido a várias questões que permeiam o nosso crescimento e influenciam em nosso desenvolvimento, muitas pessoas possuem dificuldade para se entenderem em suas sexualidades e gêneros. A heterossexualidade compulsória e a cisnormatividade estão presentes em nossa sociedade muitas vezes sendo disseminadas como um ideal de ser. A jornalista Milena Geovana diz em seu relato que ela cresceu acreditando que o amor romântico era tudo aquilo que ela precisava para ser feliz, livre de todas as inseguranças. Ela foi ensinada que o responsável por todas essas coisas seria um príncipe encantado, mas em sua jornada ela descobriu que não era um príncipe que iria caminhar com ela na estrada da vida.
Esses ideais e papéis de gênero que nos são impostos desde tenra idade acabam sendo reverberados em nossas vivências e experiências, tornando muito mais complicado o processo para que uma pessoa se identifique e vivencie sua identidade. Segunda a psicóloga Gabrielly Brasca existem dois pontos muito importantes a serem trabalhados quando há dúvida e medo na descoberta da sexualidade e/ou gênero, que é o autoconhecimento e como lidar com as opiniões e expectativas alheias.
‘‘O autoconhecimento é libertador, muitas pessoas conseguem se entender, se respeitar e se conhecer sozinho com o passar dos anos, de acordo com as experiências ganhas, lições aprendidas, mas muitas vezes é necessário ir à terapia para que esse caminho não seja tão doloroso. De qualquer forma, saber o que você quer e o que você gosta é importante para diminuir o medo, não estar sozinho também ajuda, ter o apoio de amigos ou pessoas que estejam passando pelo mesma coisa auxilia nesse processo, porque dessa forma você entende que sua existência não é uma curva errônea, e sim mais um das centenas de jeitos de se viver.
Aprender a lidar com as expectativas dos outros pode ser mais difícil, sabemos que a questão da sexualidade ainda é um tabu, a maioria das pessoas sofrem preconceitos se fugirem do que é esperado delas — a heteronormatividade. Por isso, é preciso se entregar ao trabalho exaustivo e diário de se desvincular do peso da expectativa alheia. Quem vive a sua vida é você, cabe a você suas decisões e a mais ninguém, por mais que doa ou desaponte.’’
Claro que a desvinculação de pessoas que não lhe aceitam diz respeito às expectativas de pessoas próximas, a pessoa aceitar a própria sexualidade engloba muitos outros assuntos importantes e sociais.
No amor romântico, podemos compreender que ele se manifesta através de um forte afeto de alguém por outra ou outras pessoas. Além disso, dentro do relacionamento é possível encontrar a presença de desejos de se conectar emocionalmente e fisicamente. Entretanto, mesmo que seja muito comum associarmos o amor ao erotismo, sentimentos românticos e relacionamentos podem ser construídos e vivenciados sem nenhum tipo de consumação física ou com interações reduzidas. Como no caso de pessoas Assexuais ou Arossexuais, que muitas vezes se sentem fora de lugar por não sentirem desejos sexuais, românticos ou sentirem com pouca intensidade. A psicóloga Gabrielly aponta que o autoconhecimento é essencial nessas horas, tanto para se reconhecer como para se aceitar e poder viver o amor da sua forma.
''O autoconhecimento e a informação são de extrema importância! A pessoa saber o que é Assexual e se identificar com suas características, saber que existem pessoas como ela e que é possível ter um relacionamento saudável e suficiente do jeito que ela procura. A boa comunicação também é necessária, conversar com o parceiro ou parceira, explicar como é a sua forma de funcionamento emocional, social e sexual, e entrar em comum acordo para que nenhuma das partes se sinta insatisfeita.''
Como Milena bem disse anteriormente, amor é construção diária e independente do formato, deve haver muita comunicação, sinceridade e respeito acima de tudo. E tudo bem se você não sentir a necessidade de um amor romântico em sua vida, como estamos vendo aqui, o amor vai muito além, existem diversas formas de amar e formatos de amores. Clara Perim, por exemplo, descreve que após muitas desilusões tentando se forçar a entrar em relacionamentos, ela percebeu que tudo bem não estar em um. Ela entendeu que existem muitos outros tipos de amores, como o amor que ela tem por sua sobrinha.
''Sempre cresci acompanhando filmes da Disney, dentro de um mundo muito mágico. Nele a protagonista era realmente feliz quando ela encontrava seu par romântico e vivia o "feliz para sempre’’. Grande parte da minha adolescência, eu fiquei tentando me forçar a amar alguém. Isso claramente deu errado. Foi quando eu percebi, depois dos meus vinte anos, que não era isso! Simplesmente algumas pessoas não se apaixonam e tá tudo bem. E que o amor romântico ele não é uma forma mais envolvida do que qualquer outro tipo de amor ou que ele esteja numa hierarquia. Simplesmente é uma forma de amor e existem várias outras. Tão importantes quanto.''
E por mais que muitos de nós somos capazes de conceber a diversidade do amor, ainda nos dias de hoje, é possível observar pessoas sendo julgadas, oprimidas, violentadas e até mesmo mortas, apenas por amarem. E como consequência desse preconceito, praticamente todos os dias, vemos manchetes escancarando a violência sofrida pela comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil.

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De acordo com o relatório da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais (ILGA), o Brasil ocupa o primeiro lugar nas Américas em quantidade de homicídios de pessoas LGBTQIAP+ e também é o líder em assassinato de pessoas trans no mundo.
– 2020” , realizado pelo GGB e pela Acontece Arte e Política LGBT+, de Florianópolis - SC, pelo menos 237 pessoas morreram por conta da violência LGBTfóbica no ano passado. Os dados mostram que das 237 pessoas que morreram em 2020, 224 foram homicídios e 13 suicídios. Do número total de mortes, 161 eram travestis e trans, 51 eram gays, 10 eram lésbicas, 3 eram homens trans, 3 eram bissexuais e 2 eram heterossexuais que foram confundidos com LGBT+.
De acordo com dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 19 horas, uma pessoa LGBT+ é morta no país e nos últimos 20 anos foram contabilizadas mais de cinco mil mortes. Em 2021, a pandemia e a subnotificação de casos fez com que as mortes de pessoas LGBTQIAPN+ fossem menos comunicadas às autoridades. De acordo com o relatório “Observatório das Mortes Violentas de LGBTQIAP+ no Brasil
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Mesmo que os números de mortes sejam altos, acredita-se que essas estimativas podem ser ainda maiores. Isso porque, existem oscilações numéricas, subnotificação e constantes desmontes de campanhas que incentivam as denúncias.
Essa lacuna que existe entre os números oficiais e os casos reais de assassinatos é reflexo de uma despadronização dos estados na forma de documentar e classificar as ocorrências. Embora haja parâmetros para a inclusão de orientação sexual e identidade de gênero nos boletins, a obrigatoriedade do preenchimento e registro desses campos não é regra em todo o país. No que se refere à população LGBTQIAPN+, dos 26 estados e o Distrito Federal, 15 não disponibilizaram os índices de agressão, homicídio e estupro ou divulgaram parcialmente. Sem dados oficiais que de fato representem a realidade da violência contra LGBTQIAPN+, é difícil criar políticas de segurança pública efetivas para proteger a população.
As mudanças precisam ir muito além da legislação, pois mesmo em um país como o Brasil, no qual a comunidade LGBTQIAPN+ lutou e conquistou tantos direitos legais ao longo dos anos, ainda sim, as últimas pesquisas revelam que nosso país mata mais homossexuais e transexuais do que nos 13 países, no qual a pena de morte para essas pessoas ainda prevalece. Essa violência pode acontecer porque os agressores internalizam que existe apenas um tipo X e Y de amor e qualquer coisa que sair disso para eles é considerado errado ou fora de lugar. Mas, este é só um dos motivos, existem inúmeros outros que perpetuam a prática desta violência e preconceito. Como exemplo, as leis do país que essa pessoa vive, que também podem influenciar a compreensão do que seria considerado certo e errado.
Entretanto nada disso justifica que uma pessoa cometa qualquer ato de violência contra outra apenas porque ela não se encaixa no seu ideal de amor. Como já dizia a cantora Trizz em sua música Elevação Mental:
''O preconceito não te leva a nada. Não seja mais um babaca de mente fechada. Por que o ódio mata, mas o amor sara... De qual lado ocê vai ficar? Brasil, país que mais mata pessoas trans. Espero que a estatística não suba amanhã. Me diz, por que o jeito de alguém te incomoda? Foda-se se te incomoda... É meu corpo, é minha história. E sobre a minha carne, ocê não tem autoridade. Não seja mais um covarde, de zero mentalidade. Seja inteligente, abra a sua mente... O mundo é de todos, não seja prepotente! ''
Seja quem for, ''o coração que pulsa em nosso peito é de igual pra igual'', por isso as leis sofreram várias modificações extremamente importantes e necessárias para que mais formas de amor fossem reconhecidos e protegidos. Todavia, como já foi dito, nos dias atuais existem outros países que não compartilham dessa realidade e além de não compreenderem diferentes modelos de amor, ainda os criminalizam. Um estudo realizado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Transexuais e Intersexuais (ILGA) junto com 1.300 outras organizações, analisou as leis de 193 países reconhecidos pela Organização da Nações Unidas - ONU, e atestou que mais de 70 deles consideram crime relações homossexuais, ou seja, um amor entre pessoas do mesmo sexo. No mapa abaixo você poderá visualizar melhor alguns dos países que possuem essa criminalização.
A legislação que garante direitos e protege a comunidade LGBTQIAPN+ varia de acordo com cada país, e por sua vez sofrem influência da cultura, tempo e espaço, entre outros aspectos. Essas diferenças de direitos existiram na história da civilização humana e continuam até o presente. Atualmente, por exemplo, países como Arábia Saudita, Mauritânia ou Lêmen, que impõem pena de morte à homossexualidade. E também existem países que legalizam casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo, como Holanda, Espanha, Canadá ou Brasil.
Em nosso país, as relações homossexuais foram proibidas entre 1533 e 1830. No entanto, a questão da transexualidade permaneceu como um tabu por muitas décadas e só mudou significativamente nos últimos 30 anos. De acordo com o advogado Adnan Advincula, as leis se alteram de acordo com as modificações da sociedade e suas reinvindicações e necessidades, deste modo é imprescindível que a legislação do país acompanhe o desenvolvimento de seus habitantes, para garantir que cada pessoa tenha seu direito básico provido.
Além de toda a diversidade cultural, espacial e temporal existente nas leis que dizem respeito a comunidade LGBTQIAPN+, ela é heterogênea em si. Deste modo suas reivindicações de direitos mudam muito de acordo com suas realidades e demandas. Sendo assim, seus requerimentos, de modo geral, são:
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O direito à vida, independente de orientação sexual, identidade de gênero e identidade sexual, etc;
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O direito à integridade social, refutando todas as formas de preconceito, entre heterossexuais, gays, lésbicas, travestis, transexuais, transgêneros, etc;
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Os direitos civis, incluindo o direito ao casamento civil e à união estável entre pessoas do mesmo sexo, refletindo nos direitos de pensão, sucessão de bens, adoção de filhos, etc, garantidos aos casais heterossexuais;
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O direito de tratamento médico, onde travestis e transexuais buscam ser atendidas pelos órgãos de saúde públicos para realizar as mudanças hormonais e/ou cirúrgicas que condizem com as suas identidades;
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O direito de revisão do nome e sexo nos registros civis para transexuais.
Na linha do tempo abaixo, vocês podem ver um pouquinho de como o nosso país foi conquistando alguns desses direitos mencionados acima. Bem como alguns outros momentos históricos que foram muito significantes para a comunidade em si.




















